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Mensagens de Amizade

Carta de despedida para Maria

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Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.

Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta.

Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados.

Não quero que ela fique triste; quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade.

Nos conhecemos em 1970. Havia uma clima de medo nada propício para o amor.

Mas, tínhamos que começar o namoro de alguma forma...

Foi no ônibus da vila das belezas, em São Paulo.

Saímos em direção ao fim da linha como quem busca um começo. E aí, veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo público.

Nosso amor era muito mais forte que qualquer ideologia.

Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, perto da igreja da Penha.

No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais.

Mas como fizemos amor naquele tempo! Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.

Até que tudo começou a cair. Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente.

Fomos para o Chile.

Depois, passamos por muita coisa. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?

Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade!

Era verdade! O Brasil era nosso de novo.

A primeira coisa foi comer tudo que não havíamos comido no exílio: feijoada, angu com galinha, quiabo com carne... Um reencontro com o Brasil pela boca.

Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite.

Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais.

Mas, como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei: a Aids.

Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos.

O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa.

E você, mais do que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado.

A Aids selou um amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tentação do desespero, o desânimo diante do futuro.

Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um senão.

Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim... inseparável.

E foi um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não ter?


Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho.

Preferi a segurança total ao mínimo risco.

Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher...

Viver é muito mais que fazer sexo.

Mas, para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.

Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.

Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história.

Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas. É morrer muitas vezes em uma só.

Te amo para sempre,

Betinho.

Autor da mensagem: Desconhecido

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Contribuíção: Denise Carreira

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Luz, Vida e Amor
Autor:   Francisco Campos de Carvalho
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